Archive for 28 de novembro de 2011

HMV Apollo Hammersmith

Em uma das nossas recentes aventuras por Londres, fomos conhecer o antigo Hammersmith Odeon, atualmente denominado HMV Apollo Hammersmith, uma casa de shows muito conhecida por aqui, localizada na Queen Caroline Street, em Hammersmith.
Além de conhecer o bairro, nosso objetivo era visitar mais uma das locações de A Hard Day’s Night. Na verdade, queríamos ver se aquela escada de ferro que os Beatles descem, no filme, ainda estava lá. Lembra-se dela?

A visão do teatro está um pouco diferente, porque agora há um amplo painel revestindo toda a frente. Entramos por uma passagem lateral que nos levaria até o fundo. Já estávamos fotografando uma escada lateral quando, na metade do corredor, esbarramos em um “Can I help you” que barrou definitivamente a nossa entrada, apesar da nossa insistência. O funcionário, simpático, argumentou – com razão – que todo dia tem gente, de toda parte do mundo, querendo fotografar a escada… Por isso, para entrar ali, só com autorização.

Naquele dia só o staff do Motorhead, banda que faria o show daquela noite, estava autorizado. E não houve jeitinho…

Inconformados, tratamos de procurar algum outro lugar que possibilitasse uma visão dos fundos do teatro, ainda que de longe. Bem atrás do teatro só foi possível enxergar a parte de cima do prédio. :-(


Voltando pelo outro lado encontramos outra passagem, fechada por um portão de ferro, que nos permitiu ver a parte de cima da escada, pois um furgão estacionado obstruía a visão.


Mais algumas fotos e lá veio outro funcionário… Bem, pelo menos “não perdemos a viagem”. A escada continua lá… e aparentemente igual ao que era em 1964.
De lá fomos conhecer um pouco o bairro de Hammersmith e tomar uma big cerveja num pub em Kings Street. Próxima parada: Lancaster Road, assunto para um próximo post.

Grandes encontros

A Livraria e Galeria de Arte Indica, em Mason’s Yard, nº 6, em Mayfair, teve história para contar. Foi lá, em 9 de novembro de 1966, que John foi apresentado por John Dunbar à artista japonesa Yoko Ono, então com 33 anos, na véspera da abertura de sua exposição “Unfinished Paintings and Objects”.

Inicialmente, a livraria ocupava o andar térreo do prédio e a galeria de arte ficava no subsolo (basement). No verão de 1966 a livraria se mudou para o nº 102 de Southampton Row, e a galeria de arte passou a ocupar também o térreo.

John Dunbar (primeiro marido de Marianne Faithfull), Peter Asher (irmão de Jane Asher) e BarryMiles (escritor, autor da biografia de Paul McCartney, Many Years From Now) eram os proprietários da Indica. Nos primeiros tempos Paul McCartney ajudou financeiramente a manter a galeria.

Os três sócios da Indica

De acordo com o livro Many Years From Now, foi também na Indica, em março de 1966, que John encontrou o embrião da letra de Tomorrow Never Knows, a frase: “Whenever in doubt, turn off your mind, relax, float downstream”, a qual ele leu em um livro que achou na prateleira – The Psychedelic Experience, de Timothy Leary – enquanto procurava uma obra do filósofo alemão Nietzsche.
Visitamos o local há poucos dias.

A Mason’s Yard é um tipo de vila (ou pátio), que sai da Duke Street -St James (cuidado, porque no centro de Londres há outra Duke Street, em Marylebone). A região é muito charmosa, cheia de galerias de arte. No lugar onde ficava a Indica agora há a galeria Stephen Ongpin & Guy Peppiatt Fine Art. Anteriormente se chamava James Hyman Fine Art.

Nessa vila, no nº 13, bem próximo da Indica, havia a casa noturna Scotch of St James Club, muito frequentada pelos artistas da época, inclusive Paul. Atualmente, no endereço funciona o Directors Lodge Club.

A Mason’s Yard tem duas entradas, uma bem estreita, apenas para pedestres (abaixo), ao lado do pub Chequers Tavern e outra para carros (acima). É um lugar muito interessante!


Não muito depois de John Lennon encontrar Yoko Ono, McCartney conheceu a americana Linda Eastman, no Bag O’Nails Club, em 15 de maio de 1967. Ela estava lá com os integrantes do grupo Animals. Paul se interessou logo por ela, e a convidou para ir com ele e seus amigos ao Speakeasy, um clube em Margaret Street, para onde foi todo o grupo. De acordo com depoimentos de Paul e Linda, o encontro ficou marcado pela música de Procol Harum, A Whiter Shade of Pale, que ouviram pela primeira vez no Speakeasy e gostaram muito, ficando curiosos para saber quem estava cantando. (É, essa música realmente marcou a nossa geração!)

O Bag O’Nails Club ficava na Kingly Street nº 9, uma rua paralela à Carnaby Street, no Soho. Em nossa visita ao endereço, pudemos ver que atualmente ali está estabelecido o Miranda Club, um clube privado que, de acordo com seu site, ainda mantém algum vínculo com o antecessor ilustre. Na entrada há duas placas dando conta da importância histórica do lugar, uma referente ao encontro de Paul e Linda e a outra informando que foi nesse local que Jimmi Hendrix Experience fez sua primeira apresentação no Reino Unido, em novembro de 1966.

Curiosamente, apenas em 1968 os relacionamentos de John e Yoko e de Paul e Linda efetivamente engrenaram. Em 29 de fevereiro de 1968, Yoko separou-se de Tony Cox e, segundo consta, começou a perseguir John Lennon. Linda teve um segundo encontro com Paul poucos dias depois, na festa de lançamento do disco Sgt Pepper’s, mas depois eles só voltaram a se encontrar em 13 de maio de 1968, em New York, no evento de lançamento da Apple nos Estados Unidos.

E para complementar, já que falamos no Bag O’Nails, perto do Palácio de Buckingham almoçamos em um tradicional pub com esse mesmo nome. É provável que o pub e o club pertencessem aos mesmos donos, na época. Muito bom.

Uma bem conhecida usina de energia…

Em meio a rumores de uma possível demolição de um dos símbolos da capital londrina – antes que o pior aconteça – um sábado destes fomos visitar a “well known” Battersea Power Station, uma usina geradora de energia, atualmente desativada, localizada na margem Sul do rio Tâmisa, em Battersea.


O dia estava maravilhoso, o céu absolutamente azul nos permitiu uma visão fantástica do lugar, conhecido dos brasileiros por sua aparição no filme Help! e, posteriormente, por ter sido capa do álbum Animals, do grupo Pink Floyd.


Em Help! não chegou a ser verdadeiramente uma locação, pois vemos apenas a imagem da usina, na cena em que ocorre uma sobrecarga de energia, causada por aquela invenção maluca que fazia os Beatles flutuarem, e um fusível é queimado.


A capa do álbum de Pink Floyd, por outro lado, teve história, porque de acordo com depoimentos da equipe encarregada da produção fotográfica, foram necessários 4 dias para completar o trabalho, e uma equipe de mais de 20 pessoas, além dos integrantes do grupo, que também acompanharam parte dos trabalhos. Tudo por culpa do porco inflável que aparece na foto, o qual estava preso a uma das chaminés, mas escapou no segundo dia e sobrevoou descontroladamente a cidade, chegando a prejudicar o movimento dos aviões no aeroporto de Heathrow. Com muito marketing envolvido, o lançamento do disco, em 1977, também foi realizado em Battersea.


A usina foi construída em duas etapas, em 1930 e 1950, e foi projetada pelo renomado arquiteto Sir Giles Gilbert Scott, o mesmo que desenhou as icônicas cabines de telefone vermelhas características de Londres. Está desativada desde 1983 e ainda há controvérsias quanto ao seu futuro. É muito pouco provável que seja demolida, mas há quem defenda essa ideia… Fica ao lado do Battersea Park, uma grande área verde com uma ótima vista do rio Tâmisa e da margem Norte, onde se localiza o elegante bairro de Chelsea. Foi um passeio muito gostoso, recomendado para quem quer fugir dos lugares muito turísticos que estão sempre superlotados.

Torres da usina de Battersea ao fundo


Ringo Starr no Brasil

Finalmente os brasileiros terão a oportunidade de assistir ao vivo a mais um dos ícones dos anos 60. Oportunidade também para os críticos e oportunistas (ou melhor dizendo: os críticos oportunistas) aproveitarem o momento para destilar suas frustrações e recalques, fazendo os tradicionais comentários de pouco caso, tentando diminuir a importância do músico.
Gente famosa na mídia brasileira (TV, jornais e revistas) e até um ex-humorista, ambicioso postulante a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, não perderam a chance de tentar reduzir Ringo a um mero coadjuvante dentro dos Beatles. Esses meio-entendedores da obra do quarteto sequer se preocuparam em pesquisar um pouco melhor antes de proferir seus comentários, com ares de “experts”…

João Gilberto, ao receber vaias em setembro de 1999, no show de inauguração do Credicard Hall em São Paulo, reagiu cantarolando: “Vaia de bêbado não vale…”. Vale aqui a analogia: “Crítica de ex-humorista não vale!”

Não precisamos ir muito longe para buscarmos as referências sobre a importância de Ringo para os Beatles. John, Paul, George e George Martin em diversos momentos fizeram comentários enaltecendo as qualidades de Ringo como baterista.
Se Ringo não é um músico de fina técnica, também não o é (ou foi) nenhum dos outros três. Nenhum deles sabia ou sabe ler e escrever música. Todos os quatro tiveram formação totalmente intuitiva. Mas é importante entender que os Beatles nunca objetivaram se transformar em um grupo de virtuosos instrumentistas. Eles foram um grupo de virtuosos CRIADORES.
Dentro do seu processo de criação – o mais eficiente de que se tem notícia no campo da música popular – eles conseguiram provar a força de uma unidade criativa perfeita: compositores, cantores, músicos e arranjadores, todos trabalhando em favor de um resultado em nome do GRUPO.


Se Ringo não se desenvolveu como compositor durante a carreira da banda, isso em nenhuma hipótese deve ofuscar sua contribuição para o padrão de qualidade da obra dos Beatles. Afinal, diante da prolixidade da dupla Lennon e McCartney, até mesmo Harrison teve dificuldades para conquistar seu espaço.
Ringo Starr dava ao grupo a exata medida de precisão do ritmo requerido para cada canção gravada.
Deve-se ter em mente sempre que uma das maiores qualidades do grupo sempre foi o ecletismo. As mais diversas manifestações musicais foram incorporadas à obra dos Beatles e Ringo incluía de forma sempre perfeita a sua percussão. Ou alguém pode imaginar que a obra do grupo poderia ser melhorada pela presença de outro padrão de bateria?
Alguém trocaria a percussão de “A day in the life”, “Get back”, “Strawberry Fields forever”, “Rain”, “Something”, “Ticket to ride”, “Good day sunshine”, “Tomorrow never knows” … etc… etc… para tornar essas gravações melhores?
Aos críticos e detratores, parafraseando o comentário de McCartney sobre as críticas ao fato do Álbum Branco ser duplo (DVD Anthology): Ringo Starr is the bloody Beatles drummer. So shut up, you all! Ringo Starr foi o único baterista da melhor banda de todos os tempos. Esse currículo é suficiente!

Um pouco mais sobre as locações de “Help!”

Londres está cheia de locais que serviram de locação para os filmes dos Beatles. Na região central, no nº 167 da New Bond Street, em Mayfair, rua famosa pelas grifes de luxo, fica a joalheria que aparece em Help!, à qual Ringo se dirige na tentativa de tirar do dedo o anel do sacrifício. Chama-se Asprey.

Não mudou quase nada. Compare:

Não muito longe dali, em Marylebone, visitamos o local onde ficava o Restaurante Rajahama, aquele em que John tira uns óculos e depois um “season ticket” (ingresso para temporada) do prato de sopa. O restaurante está localizado na Blandford Street nº 8, próximo à Marylebone Hight Street. Já passou por diversas reformas que modificaram completamente sua fachada. Atualmente pertence à rede Giraffe.

Comparando a imagem da esquina (ao fundo) em Help! e atualmente, percebemos que quase nada mudou em volta, embora o ângulo da nossa foto não seja exatamente o mesmo. Aliás, a perua que vende sorvetes ainda não foi aposentada por aqui. Em nosso bairro, no verão, sempre passa uma van semelhante, tocando uma música característica para chamar a atenção das crianças.


Bem, “I can’t say no more“…  Mas os “cenários” dos filmes ainda não acabaram. Em breve a continuação.