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My Valentine

O termo “pop” já há muitos anos passou a ser utilizado de forma pejorativa para (des)qualificar trabalhos de artistas, dando-lhes uma conotação de obras menores sob o ponto de vista artístico, apenas voltadas para o sucesso imediato. Paul McCartney foi e (em certa medida) continua sendo um dos principais alvos dos críticos nesse sentido.
Mas está mais que na hora desses formadores de opinião passarem a encarar os trabalhos de Paul com uma visão menos tacanha e míope.

Para muitos Paul é “o mais pop dos ex-Beatles”, não importa o que ele faça. McCartney pode compor um Liverpool Oratorio, pode compor música para balé (Ocean’s Kingdom); pode fazer experiências com música eletrônica (Firemen), pode gravar um álbum de standards americanos em sua maioria pouco conhecidos, como o caso de Kisses on the Bottom, e lá vem o crítico de plantão anunciar o mais “pop” dos Beatles… bla bla bla…
Muito mais importante que discutir o fato de Paul ser ou não o mais pop, é constatar que o músico tem provado ao longo de toda a sua carreira um intenso conhecimento e domínio de diversas formas de manifestação musical.
Para Macca, não existem fronteiras de qualquer natureza entre as formas de expressão musical. Música boa é música boa, seja ela rock, folk, R&B, reggae, balada, jazz, blues, etc…


Característica necessária a um músico Pop é a de encontrar o seu “nicho” e se estabelecer em sua zona de conforto ao decidir os passos a serem dados. McCartney está longe de ser um músico estabelecido em alguma zona de conforto, Kisses on the Bottom é mais uma demonstração disto. Repertório não desconhecido, mas pouco visitado por ele, além de grande perspectiva de comparações com monstros sagrados como Sinatra, Dean Martin, Julie London, Nat King Cole e tantos outros que transformaram essas canções em standards. Trabalhar com músicos profissionais de jazz, aqueles que “conhecem” cada nota que devem tocar. Limitar-se a ser apenas um “crooner”, ou seja, cantar sem estar “protegido” por qualquer instrumento.
Esses foram alguns dos desafios que Paul enfrentou ao decidir executar este álbum. O resultado prático? Excelente. O tratamento dado a cada canção é intimista, sóbrio e extremamente elegante.

O grupo de músicos que acompanha Paul é excepcional e inclui, entre outros, Diana Krall (ao piano, em todas as faixas, além dos arranjos) e John Pizzarelli. Conta ainda com algumas participações especiais, particularmente nas canções compostas por Paul: Eric Clapton, na faixa mais importante do CD, “My Valentine”, em um delicado e lindo solo de violão (Eric também empresta seu talento na gravação de “Get Yourself Another Fool”), e Stevie Wonder, com uma maravilhosa gaita em “Only Our Hearts”. O fato de Diana ser casada com Elvis Costello certamente facilitou o desenvolvimento dos trabalhos de escolha de repertório, arranjos e produção do disco.


No mais, a participação de Eric Clapton encerra de uma vez por todas os rumores (sem qualquer fundamento) de que Clapton e McCartney não se suportam!!

Na impecável performance ao vivo no Capitol Studios (iTunes em 9 de fevereiro), Joe Walsh (do grupo Eagles e atual cunhado de Ringo Starr) substitui Clapton e Abe Laboriel Jr. (baterista da atual banda de Paul e filho do baixista Abraham Laboriel) faz um preciso vocal de apoio em algumas canções.
Certamente Kisses on the Bottom é mais um trabalho a comprovar que Paul é o mais pop dos Beatles. Paul já esteve em 1º lugar nas paradas de sucesso de rock diversas vezes; de clássicos, algumas vezes.  Provavelmente, em breve também estará no topo das paradas dos discos de jazz.
So… Paul McCartney é seguramente o mais pop dos Beatles. Mas porque aquilo que ele faz se torna popular. Assim como os Beatles foram o grupo mais pop da história da música.

P.S. Bendita Nancy Shevell, por deixar o Macca tão inspirado! Abaixo, cantando “My Valentine” na cerimônia de entrega do Grammy 2012.

Kisses on the bottom

Enquanto aguardamos o lançamento do novo CD do Paul, resolvemos mostrar aqui as mesmas canções gravadas para o disco nas versões originais.
Quando Paul participou em um programa de TV em homenagem a Frank Loesser ele contou que era um hábito de sua família sentarem-se todos em uma sala (tios, primos, irmãos…) particularmente nas reuniões de fim de ano, para cantarem juntos as canções que eram repertório dos mais velhos.
Nesse show Macca canta “On A Slow Boat To China”. Ele não gravou esta para o novo disco, mas incluiu outras duas canções de Loesser.
A escolha das músicas para o álbum Kisses on the bottom está baseada nessas memórias que Paul cultiva desde a infância.
Embora a grande maioria das canções tenha sido gravada por vários cantores e cantoras, procurei selecionar as gravações que mais parecem ser aquelas ouvidas pelos pais e tios de Macca, ou seja, as primeiras a serem executadas em rádio nos anos 30 e 40. (Clique nos links abaixo dos títulos das faixas para ouvir.)

As faixas:

I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter (Fred E. Ahlert / Joe Young)

Im Gonna Sit Right Down And Write Myself A Letter – Boswell Sisters

Composta em 1935 e, talvez, ao lado de Bye Bye Blackbird e It’s Only A Paper Moon, sejam as mais conhecidas canções do disco.
É dela inclusive que sai título do CD:

I’m gonna sit right down and write myself a letter
And make believe it came from you

I’m gonna write words oh so sweet
They’re gonna knock me off my feet
A lotta kisses on the bottom
I’ll be glad I got ‘em

I’m gonna smile and say
I hope you’re feeling better
I’ll close with love the way you do
I’m gonna sit right down and write myself a letter
And I’m gonna make believe it came from you

I’m gonna write words oh so sweet
They’re gonna knock me off my feet
A lotta kisses on the bottom
I’ll be glad I got ‘em

I’m gonna sit right down and write myself a letter
And I’m make believe it came from you
Oh yeah
I’m gonna make believe it came from you

Já foi regravada por muita gente boa a partir dos anos 50: Frank Sinatra, Dean Martin, Nat King Cole, etc…e, mais recentemente, por Madeleine Peyroux em uma deliciosa versão em seu primeiro disco.
Fats Waller fez a primeira gravação, apenas ao piano. As Boswell Sisters gravaram com a letra completa, inclusive os primeiros versos que anunciam o porquê da decisão do cantor de escrever uma carta para si mesmo!

Home [When Shadows Fall] (Peter Van Steeden / Jeff Clarkson / Harry Clarkson)

Home (When Shadows Fall) – Louis Armstrong & His Orchestra

Primeiramente gravada por Rudy Valle & his Connecticut Yankees, em janeiro de 1932.
Louis Armstrong a gravou em seguida, ainda em 1932, e mais tarde a regravou no início dos anos 50.

It’s Only a Paper Moon (Harold Arlen / E. Y. Harburg / Billy Rose)

Its Only A Paper Moon – Nat King Cole

Nat King Cole a gravou entre 1944 e 1945 e depois a regravou anos mais tarde.
Essa canção é uma das mais regravadas entre as escolhidas por Paul. Antigas ou mais recentes, existem dezenas de interpretações. Uma interpretação de Harry Nilsson aparece nas faixas extras da reedição de 1988 de seu LP A Little Touch Of Schmilsson In The Night – álbum só de “Standards” lançado originalmente em 1973.

More I Cannot Wish You (Frank Loesser)

More I Cannot Wish You – Mabel Mercer

Composta em 1950 para o musical da Broadway “Guys and Dolls”.
Esta é certamente uma das mais obscuras entre as canções escolhidas por Paul; não existem muitas regravações dela. Frank Sinatra a cantou, junto com sua filha Nancy, Dean Martin e sua filha Gail, no Dean Martin Christmas Show de 1967.

The Glory of Love (Billy Hill)

The Glory Of Love – Benny Goodman with Helen Ward

Esta é a canção mais famosa de Billy Hill. Benny Goodman, com vocal de Helen Ward, a lançou em 1936, e ela foi gravada por vários cantores a partir dos anos 50, incluindo Peggy Lee e Dean Martin.

We Three (My Echo, My Shadow and Me) (Sammy Mysels / Dick Robertson / Nelson Cogane)

We Three (My Echo My Shadow And Me) – Frank Sinatra

Realizada por Sinatra, entre 1940 e 1942, acompanhado por Tommy Dorsey e sua Orquestra, esta gravação só esteve disponível em discos de 78 rpm até os anos 80, quando então todas as sessões de Sinatra com Tommy Dorsey foram compiladas e reeditadas em vinil e CD.

Ac-Cent-Tchu-Ate the Positive (Harold Arlen /Johnny Mercer)

Ac-Cent-Tchu-Ate The Positive – Andrews Sisters & Bing Crosby

Composta em 1944, esta canção foi sucesso em 1946 com Bing Crosby e também com as Andrew Sisters.
A letra mostra que dar mais valor às boas coisas (ser otimista) pode ser um dos segredos para a felicidade. Acho que Paul se identifica muito com a mensagem dela!!

Always (Irving Berlin)

Always – Deanna Durbin

Irving Berlin escreveu esta música como um presente de casamento para sua esposa, em 1925.
Macca gosta dessas homenagens! My Valentine foi escrita para a Nancy, não foi?
Gravações de sucesso ocorreram a partir de 1942, quando ela foi utilizada em alguns filmes.
Harry Nilsson também a gravou para seu LP A Little Touch Of Schmilsson In The Night, de 1973. Esta que coloco aqui, de Deanna Durbin, é de 1944 e do filme “Christmas Holiday”, com Gene Kelly.

My Very Good Friend The Milkman (Harold Spina / Johnny Burke)

My Very Good Friend The Milkman – Fats Waller

Composta em 1935 e lançada originalmente por Fats Waller.

Bye Bye Blackbird (Ray Henderson / Mort Dixon)

Bye Bye Blackbird – Gene Austin

Composta em 1926 e originalmente gravada por Gene Austin, esta canção tem dezenas de diferentes interpretações e arranjos, inclusive com sensíveis adaptações na letra. Paul optou por um arranjo mais lento (como o da Julie London) ao contrário de Ringo, em seu álbum Sentimental Journey de 1970, que gravou um arranjo bem acelerado (com muito banjo), escrito por Maurice Gibb (dos Bee Gees) então muito amigo de Ringo.
Muito popular também para as gerações mais novas, ela teve interpretações de Joe Cocker, Trini Lopez, Ricky Lee Jones, entre outros.

Get Yourself Another Fool (Haywood Henry / Tucker)

Get Yourself Another Fool – Charles Brown

Lançada originalmente por Charles Brown, no início dos anos 50, esta canção teve também grande repercussão quando regravada por Sam Cooke.

The Inch Worm (Frank Loesser)

The Inchworm – Danny Kaye

Composta em 1952, esta canção foi originalmente gravada por Danny Kaye, para o filme “Hans Christian Andersen”.
Mary Hopkin a gravou, com produção de Paul McCartney, para o seu primeiro LP lançado pela Apple, em 1969.

(I’d Like to Get You on a) On A Slow Boat To China (Frank Loesser)

On a Slow Boat to China – Kay Kyser

Esta canção foi composta em 1947 e gravada inicialmente por Kay Kyser. Mais tarde foi regravada por diversos outros cantores.
Embora não esteja no novo disco, incluímos aqui a gravação original de Kay Kyser, pois Paul a interpretou ao vivo em 2009, em um programa especial de homenagem a Frank Loesser.